Pequena Miss Sunshine

Pequena Miss Sunshine

O filme “Pequena Miss Sunshine” (nome original: Little Miss Sunshine, direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris) conta a história da família Hoover que, após receber um telefonema informando que a pequena e desajeitada Olive (Abigail Breslin) foi classificada para um concurso de beleza, embarca em sua Kombi amarela e passa por diversas situações na viagem de três dias entre o Novo México e a Califórnia.
O núcleo familiar é constituído por três gerações: o casal, dois filhos, um tio e um avô. Cada um dos membros da família possui sonhos e esperanças que vão sendo frustrados no decorrer da viagem.
Conforme Nichols & Schwartz (2007) os estudos em terapia familiar começaram a considerar novas constelações familiares na década de 80, incluindo outros membros além de pais e filhos como parte da família nuclear. Novos membros são incorporados a esta família não através do nascimento, mas em razão de suas necessidades.
Richard (Greg Kinnear) é o pai, extremamente otimista, que odeia “perdedores” e tenta desesperadamente vender seu programa de autoajuda que promete transformar qualquer um em um vencedor. Sua esposa é Sheryl (Toni Collete), uma mãe trabalhadora, que valoriza muito a honestidade e com frequência fica em desconforto pelos segredos excêntricos de seu irmão.
Os filhos são Olive e Dwayne. Ela, uma menina de sete anos, que sonha em ser miss; e ele um adolescente seguidor da filosofia de Nietzsche, que fez voto de silêncio até conseguir ingressar na escola de pilotos das Forças Armadas.
Frank (Steve Carrell) é o irmão de Sheryl, um professor universitário, estudioso de Proust, que tentou suicídio após ter sido traído pelo namorado. Faz parte do grupo desde que saiu do hospital após esta tentativa. Para completar a família, o avô Edwin (Alan Arkin), pai de Richard, que está na casa após ter sido expulso de uma casa de repouso por ser viciado em heroína e ensaia diariamente com a neta para o concurso.
O filme nos convida a ver essa fragmentação entre todos os personagens, mas vai além e, através do contraste entre as características de cada um tendo que conviver por alguns dias, apresenta a força que os faz repensarem valores, ideais, princípios. A aceitação é uma das grandes marcas do filme.
Quando recebem a ligação informando que Olive pode participar do concurso Miss Sunshine, a família se une com um mesmo objetivo. Conforme Minuchin:
A família sempre tem passado por mudanças que correspondem às mudanças da sociedade. Tem assumido ou renunciado a funções de proteção e socialização de seus membros em resposta às necessidades da cultura. Neste sentido, as funções da família tendem a dois diferentes objetivos. Um é interno – a proteção psicossocial de seus membros; o outro é externo – a acomodação a uma cultura e a transmissão dessa cultura (Minuchin, 1982, p. 52).
Frente à transição do modelo de família no mundo ocidental, Minuchin destaca como muito importante na família a função de apoiar seus membros. Este é um movimento que está presente em todo o filme, em todos os personagens. O autor destaca dois elementos na constituição da identidade humana, que são o sentido de pertencimento e o sentido de individuação. Tais sentidos ocorrem através da participação nos diferentes subsistemas e contextos familiares. Nossa cultura enaltece a singularidade do indivíduo, a busca do self autônomo. E nessa ideia Nichols & Schwartz (2007) apontam o “Mito do Herói”:
O que chama a nossa atenção nas famílias são as diferenças e a discórdia. A harmonia da vida familiar (...) muitas vezes deixa de ser percebida, sendo parte daquele plano de fundo da vida que tomamos como algo natural (Nichols & Schwartz, 2007, p. 24).
Nichols & Schwartz (2007) enfatizam a importância do apego no desenvolvimento dos relacionamentos, o que nos ajuda a compreender como os personagens se aproximam uns dos outros no decorrer da trama. Em algumas cenas em especial, principalmente envolvendo Olive, o afeto aparece de forma que contagia o espectador.
Carter & McGoldrick (1995) apontam para estresses familiares que ocorrem em pontos de transição do ciclo de vida. Estes pontos fazem parte da evolução natural da família e exigem negociação de novas regras familiares. A família Hoover encontra-se em uma fase com vários aspectos de transição: há um filho adolescente, um idoso dependente químico e um adulto com ideação suicida. Passa também por uma situação de morte.
Além de questões familiares, o filme nos convida a pensar questões de corpo, sexualidade e infância. É encantadora a forma como na família Olive não é contestada pelos familiares por participar do concurso de beleza, mesmo sendo o oposto dos padrões estéticos de sua cultura.
No filme estamos diante de situações relacionais vivenciadas no nosso cotidiano, nos identificamos com características dos personagens e nos deixamos envolver pela carga de afeto entre todos os membros da família. É uma história sensível, divertida e criativa, com ótimas atuações.
 
Referências
Carter, B. & McGoldrick, M. (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma estrutura para a terapia familiar (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
Minuchin, S. (1982). Famílias: Funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.
Nichols, M. P. & Schwartz, R. C. (2007). Terapia Familiar: Conceitos e métodos (7ª ed.). Porto Alegre:       Artmed.
 
                                                                                                                      Betina Casanova Forgearini