REQUIEM para um Sonho

REQUIEM para um Sonho

       Sara, mãe de Harry, é viciada em televisão e não tem objetivos na vida. Seu marido faleceu e o filho já saiu de casa. Sente profunda solidão e quer ser importante. Harry é viciado em drogas e rouba a televisão sempre que precisa pagar os traficantes. Sara quer que ele seja feliz e se case. Um dia o telefone toca e ela entende que está sendo chamada para aparecer no seu programa de TV predileto. Vai experimentar seu vestido vermelho que usou na formatura de segundo grau de Harry e descobre que engordou muito. Inicia uma dieta alimentar e acaba recorrendo a um médico que lhe receita pílulas para perder o apetite.
       Enquanto isso, Harry começa a traficar com um amigo que sonha ter dinheiro e uma vida melhor. Marion, namorada de Harry, vem de uma família rica e problemática e lhe pede ajuda para abrir sua loja e ter uma griffe. Rapidamente eles juntam um bom dinheiro e começam a se sentir invencíveis.
Sara está mais magra e sente-se ótima em seu vestido vermelho. Parece que a forma dela fugir do sofrimento de uma vida sem perspectivas, rodeada pela falta de relacionamentos saudáveis e pela ausência de responsabilidade materna é manter-se em uma ilusão que aos poucos vai transformando-se em realidade em virtude dos efeitos alucinógenos das pílulas para emagrecer. Mas como é de se esperar, os sintomas de tolerância e dependência se instalam.
       Harry visita a mãe e percebe que ela está usando anfetaminas. Conta que está trabalhando e ela diz que quer um neto. Ele, para aliviar sua culpa, diz que vai lhe dar de presente uma televisão.
A comunicação disfuncional gera patologias no ambiente familiar e uma delas é a dependência química. O fator decisivo para a prevenção ou precipitação do consumo excessivo de substâncias psicoativas depende do modo como a família se estrutura (Halpern, 2001). O uso indevido de drogas, a partir de uma visão sistêmica, pode ser concebido como um sintoma, como a comunicação ou a expressão da crise (Guimarães et al, 2009).
       Sara e Harry se comportam como não estivessem se comunicando. Todavia, qualquer comportamento é uma forma de comunicação, mesmo que esta não seja intencional ou desejada e a comunicação entre membros adoecidos é caracterizada pelo descaso do conteúdo da comunicação (Watzlawick, Beavin e Jackson, 2007).
       O filme, apesar de ser colorido, é perturbador e nos retrata uma história em preto e branco, onde não existe momento para sorrir. Os quatro sonham com a felicidade, mas acabam vivendo um pesadelo, pois estão viciados. Para Bowen (in Nichols e Schwartz, 2007), a questão central dos problemas psicológicos é a “fusão emocional” que é transmitida de uma geração para outra. Quanto maior a indiferenciação, maior é a forma como a pessoa age primitivamente e maior sua vulnerabilidade no seu grupo, de modo que tende a procurar companheiros com níveis semelhantes de indiferenciação.
       O filme é um alerta para os profissionais da área da saúde, principalmente àqueles que se interessam pela dependência química. Atualmente ainda existe o pensamento de uma abordagem individual ao dependente químico. Sabe-se que a recuperação dos mesmos é lenta e as recaídas são elevadas, além do abandono do tratamento. Sabe-se também que a família tem um papel fundamental na sua recuperação ou recaída, pois é impossível dissociá-lo do seu contexto familiar e social, o que exige uma abordagem mais ampla no seu tratamento. Outro alerta é para nossas autoridades que fazem pouco investimento na saúde e na educação, não levando em conta que as drogas são uma epidemia na nossa sociedade, uma epidemia que mata, mas que também traz muito dinheiro para a máquina que move este país. Então, por que investir? Voltamos ao sonho, ao sonho do poder, do dinheiro, da felicidade a qualquer custo, independente do pesadelo e desespero que possa trazer a muitas pessoas. Afinal, o indivíduo não é visto pelo que ele é e sim pelo o que tem.
 
Referências
 
González, J. A. R. (2006). Familias que fazem adoecer. Pensando Famílias, 10(2), 55-72.
Guimarães, F.L., Costa, L. F., Pessina, L. M. & Sudbrack, M. F. O. (2009).Famílias, adolescência e         drogadição. In Osório, L. C. & Valle, E. P. (org). Manual de terapia familiar (pp. 350-365). Porto Alegre: Artmed.
Halpern, S. C. (2001). O abuso de substâncias psicoativas: repercussões no sistema familiar. Pensando Famílias, (3), 120-125.
Nicholz, M.P. & Schartz, R. C. (2007). Terapia familiar: conceitos e métodos. Porto Alegre: Artmed.
Watzlawick, P., Beavin, J. H. & Jackson, D.D. (2007). Pragmática da comunicação humana. São Paulo: Cultrix.
 
                                                                                      Psic. Clínica Elisabete Beatriz Maldaner